A degradação de um casco de fibra não tem um momento. É contínua e lenta, e é por isso que tanta gente convive anos com um barco baço sem se dar conta, até ver uma foto do primeiro verão.
O que se passa, em termos simples
O gelcoat é uma resina com pigmento aplicada por cima da fibra, e é ele que dá cor e brilho ao casco. A radiação ultravioleta quebra as ligações químicas da camada superficial dessa resina, que perde a capacidade de refletir luz de forma uniforme.
Primeiro nota-se só uma perda de profundidade na cor. Depois aparece um tom leitoso. Na fase final, a superfície solta pó: passe a mão e fique com os dedos brancos. A esse ponto chama-se oxidação, e o que está a soltar-se é material morto.
Uma linha temporal realista
Não há números exatos, porque depende de onde o barco fica, de quantas horas de sol apanha por dia e da cor do casco. Mas o padrão repete-se:
- Primeiro e segundo ano: sem tratamento, o brilho perde-se devagar. Ninguém repara.
- Terceiro ao quinto ano: a cor começa a ficar apagada e a faixa da linha de água instala-se. É a altura em que a maioria dos donos ainda acha que é só lavar.
- A partir daí: oxidação visível, pó ao toque, e as escorrências cor de ferrugem por baixo das peças de inox já bem marcadas.
Cascos coloridos, sobretudo azuis e vermelhos, dão sinais mais cedo do que os brancos, porque o pigmento degrada-se de forma mais visível.
Aquilo que acelera tudo
Barco parado ao sol sem cobertura é o fator número um, muito à frente de todos os outros. Depois vem a lavagem com produtos domésticos agressivos, que retiram a proteção que ainda houvesse. E finalmente esfregar com força para tirar manchas, que é abrasão sem controlo e desgasta o gelcoat de forma irregular.
Em Almada há ainda o vento carregado de sal e areia, que junto à Costa e à Trafaria funciona como jato abrasivo muito fino em dias de vento forte.
Até onde há recuperação
Esta é a boa notícia e costuma surpreender. A camada oxidada é fina, e por baixo dela o gelcoat está vivo e com a cor original. Um casco que parece perdido volta quase sempre a ter cor.
Faz-se por abrasão controlada, com compostos de corte em passagens sucessivas, cada uma menos agressiva do que a anterior, até o brilho voltar. É trabalho demorado e é dos poucos serviços em que o antes e o depois não precisa de explicação.
O limite existe: quando o gelcoat já foi gasto ao ponto de se aproximar da fibra por baixo, não há mais material para trabalhar. Aí a solução é repintura ou aplicação de gelcoat novo, que é obra de estaleiro.
Recuperar sem selar é meio trabalho
Um gelcoat acabado de recuperar está limpo, aberto e completamente desprotegido. Se ficar assim, oxida mais depressa do que estava antes.
Um selante marítimo aguenta tipicamente uma época. Um coating cerâmico aguenta bastante mais, e tem a vantagem de tornar a lavagem seguinte muito mais fácil, porque a sujidade deixa de encontrar poros onde se agarrar. Cera, num barco, dura semanas e não vale o trabalho de a aplicar.
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